terça-feira, 21 de janeiro de 2014

FÁBULA BRECHTIANA * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

*
Não faça de sua pena uma arma
que a vítima pode ser você,
deveria ser o lema
para críticos literários,
mas não é o que acontece.

Num desses jornalões
com cadernos culturais,
um renomado crítico
faz de seu emprego um fuzil
e mata tudo
que distoa de seu gosto.

A dureza de suas críticas
já levou ao suicídio
muitos jovens escritores
e o monturo de obras
em torno de sua mesa
eleva a tal ponto seu asco
que vez por outra ele faz
com elas uma fogueira.

Mas chegou-lhe dia desses
um livro de poemas
que narra o suicídio
de um jovem também
injustiçado por um crítico
comparando sua sorte
às vítimas da Inquisição.

E quando o crítico deu-se conta
de que na Inquisição,
além de livros
também queimavam-se críticos,
pôs na cadeira o paletó 
e nunca mais deu notícias.

domingo, 19 de janeiro de 2014

POESIA PARA SÃO SEBASTIÃO * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


TROVAS A SÃO SEBASTIÃO
I
RIO do meu coração,
só tu tens por padroeiro
o santo São Sebastião
alheio a quanto janeiro.
II
São Jorge e São Sebastião
são santos ecumenistas
e por força da missão,
combatem os extremistas.
III
Feliz é ver a cidade
que habita meu coração
ser berço da cristandade
e Lar de São sebastião.

Antonio Cabral Filho
Do livro TROVADOR DE FÉ, vide link...
http://es.calameo.com/read/001893073f7a9743cda5a   
***
RIO DE JANEIRO
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros…
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
(extraído do livro: Estrela da Vida Inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)
______________________
SÃO SEBASTIÃO
São Sebastião
Tua cidade tem as curvas
Quais as curvas de um nobre violão
Não será razão de tanta música bonita
Ter-se feito em sua mão?
Ó Pai Odé
Proteje as matas que circundam esse altar
Que da maré vazante ou cheia
Já se ocupa Yemanjá
São Sebastião do Rio flechado
Em seu peito atravessado
Pelas setas dos seus filhos
Queira Deus que os meninos
Achem a trilha nos seus trilhos
Inspirados na beleza do seu verde e seu anil
E mereçam a cidade estandarte do Brasil
E que outros mil poetas
Venham te cantar, meu Rio
São Sebastião
Tua cidade cor de rosa
Fez da prosa um belo samba de Noel
Se eu fosse Gardel cantaria um tango
Pelo tanto dos encantos de Isabel
Ó meu São Tomé, se alguém duvida
Passe os olhos pela Urca e o Sumaré
Onde a Imperatriz beijou a flor
Porta-bandeira da cidade mais feliz
São Sebastião do Rio flertado
Ribeirão puro, encantado
Sol no casco dos navios
Te naveguem as mais belas
E os mais belos dos bravios
Nessas águas que fizeram de Machado
Suas letras imortais
Entre copas de Salgueiros e Mangueiras tropicais
E que novas musas venham te inspirar a paz
(extraído do cd: Menino do Rio. artista: Mart’nália. selo: Quitanda. gravadora: Biscoito Fino. autor dos versos:Totonho Villeroy.)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

FLORÃO DA AMÉRICA * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

O menino era pivete
e se chamava Joãozinho,
vivia como engraxate
ganhando a vida por aí
sem deus e sem diabo pra atentar

até que um dia 
foi estuprado por um maníaco
e encontrado morto na Lapa
dentro de um latão de lixo

Não foi homenageado
com honrarias militares
nem imortalizado
num samba de carnaval

Morreu e está morto
morto bem morto mesmo
morto até na memória
o menino que era pivete

e se chamava Joãozinho
que vivia como engraxate
ganhando a vida por aí
sem voz sem vez
e sem lugar na história...

***

domingo, 12 de janeiro de 2014

DELÍRIOS DE PROMETEU * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


Acossado por despautérios,
as Tróias do presente
e as Cartagos do futuro
obrigam-me transpor o muro
da epopeia de quimeras
e prever que qualquer dia
serei mito de ficção,

algo ímpar na literatura universal,
maior que Sherazad,
maior que Dom Quixote,
mais forte que Os Três Mosqueteiros,
mais valente que Robin Hood,
mais sortudo que Robinson Crusoé
com Segunda Feira e tudo;

desses que viram objeto de estudo
e dão pesadelo em curiosos,
são pesquisados em seminários,
são temas de teses acadêmicas
e motivo de congressos mundiais
com reunião de exegetas renomados,
cada qual com seu aporte
sobre o pobrezinho aqui;

e o maior frison
é o momento culminante
em que todos vão à práxis
acomodados em mesa redonda
para provarem seus enfoques,
quando enfim sou dissecado
letrinha por letrinha
até à exaustão;

inclusive com preleção
de Leonardo da Vinci
e sua aula de anatomia.

Depois, todos partem felizes,
com ares de dever cumprido,
enquanto eu pairo sobre tudo,
alheio ao suor derramado,
à adrenalina gasta
e ao fosfato queimado,
todo senhor de mim,
dono do meu ser ficcional
infinitamente inexaurível,
como bem apraz à obra prima.
***

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CAMINHOS PROVISÓRIOS * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

Caminhos Provisórios
E o menino da sua mãe...
O menino que ela acariciava os seus cabelos
Com todo carinho
Pedindo-lhe para não fazer artes,
Juntou-se à poeira das estradas
E sumiu na garganta do Brasil,
Esfumou-se na fumaça dos caminhões
E nunca mais deu notícias.

Até que um dia
Diante da velha Colorado
RQ 24 polegadas
No telejornal das oito,
Ela quase teve um troço:

Ali estava ele
À sua frente
Em cima de um carro de som
Liderando passeatas
Na capital da república.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

DAZIBAO * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

        DAZIBAO

Mao na cama
       Só fez
         Deng
         Deng
         Deng

Mao nas marchas
       Só fez
         Xiao
         Xiao
         Xiao

Mao no poder
       Só fez
         Ping
         Ping
         Ping

Mao na história
       Só fez
         Tian
         Tian
         Tian
             A
            M
             E
            M

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

SONHOS HERÉTICOS * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

(Leonardo da Vinci)

*
Não era anarquista,
sequer fazia tipo:
granada nos dentes,
coquetel molotov nas retinas,
fogo no Palácio de Inverno;

não era ateu,
tipo iconoclasta,
chutando imagens por aí,

nem era louco de pedra,
queimando livros sagrados
pela inquisição da fé,
torturador de beatos
no fogo das heresias.

Apenas não dava dízimo
de fracassos e sucessos
a contas imaginárias,
nem por deuses nem por demos.

Nunca seguiu nada,
sequer seu passos,
pois sempre esteve à frente;
jamais foi aonde
o nariz lhe aponta,
como fez José Régio.
***

domingo, 29 de dezembro de 2013

BOM DIA TOM WATTS * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

***
BOM DIA TOM WATTS
*&*&*
Hoje eu acordei
cumprimentando Tom Watts,
que um pouco mais que eu
empenha a vida inteira
na luta contra injustiças,
seja nos states
ou em qualquer outro lugar.

Ele, bem mais que eu,
sabe que Bertolt Brecht
morria pela dialética
e não temos nada contra
até porque nós dois
temos cá nossos modos
de também morrer pela dialética.

Aliás, ambos apoiamos
com o nosso melhor fervor
o direito inalienável
de cada um escolher
a morte que bem entender,
sobretudo os amigos do alheio.

Mas todos nós sabemos,
a sós ou na multidão,
que em termos de dialética
ela nos torna senhores
dos nossos sonhos e escolhas
e eu quase tanto quanto ele
exponho nossa bandeira:
NÓS LUTAMOS PELA VIDA!
*&*

sábado, 21 de dezembro de 2013

ADEUS REGINALDO ROSSI * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

ADEUS REGINALDO ROSSI
*
Ninguém imagina como
mas um dia eu
briguei com Reginaldo Rossi.
Foi uma briga feia,
rolou peixeira, empurra-empurra,
rabo-de-arraia até
a turma do deixa-disso se meter.
Eu já tinha bebido não sei quantas,
tava bem prá lá de Bagdá,
tinha acabado o cigarro
meu e do bar,
devia ser umas três da matina,
e o Reginaldo, dono do bar,
veio me dizer
que só tinha esse disco;
ninguém pescava por quê
só tocava "garçon"
na sua vitrola,
foi quando eu perdi a linha,
ameacei não pagar a conta
e levantei-me pra sair,
aí ele explicou-me
que o disco estava arranhado
e só escapara aquela faixa!
Mas o "próprio" acaba de partir...
E agora,como vou brigar
com o Reginaldo Rossi?
*&*

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

DA ARTE DE TORTURAR CRIANÇAS * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

***
Dia desses eu atravessei a cidade, fui lá pros confins da zona oeste, na casa de um amigo, fechar uns textos que tínhamos de encaixar numas publicações. 
É que esse negócio de e-mail prá lá e-mail pra cá não funciona. 
Saltei do ônibus e lá estava ele no ponto encostado na sua Harley Davidson, de estimação. Engarupei-me e partimos pelo baixadão de Raíz da Serra. O desconforto era imenso. Não suporto andar de moto, inda mais na garupa. Ao chegar em sua casa, notei que estávamos tensos, fosse pelas responsabilidades ou pelo trajeto desagradável.
 Sem querer aporrinhar, pedi-lhe um copo d'água, e ele trouxe uma garrafa com dois copos e sentamos à mesa da sala. Ele pegou seu notebook, eu abri o meu e liguei e fomos corrigindo textos, acertando frases e períodos; plantando massetes aqui,  ali expressões jornalísticas, alguma gíria linguística, e, às vezes ríamos, porque sabemos que isso vai dar lenha; neguinho vai ter que ir ao "burronário" pra decifrar um pouco, pouco apenas, porque tudo não dá...Estamos matando à unha.
Suas crianças, três, um menino e duas meninas, se encastelaram na mesa; cada uma com seu  " ai...bolso!"; é claro que atrapalha. Ele já está irritado com elas, pois manda sair, ir para os seus quartos, para a varanda, para o quintal, mas elas repicam que "eu sou muito legal" e querem saber se eu vou contar história pra elas hoje. É tio Cabral pra lá e tio Cabral pra cá...Não tem jeito! Mas ele resolve pôr o menino de castigo; tem 4 anos, é muito esperto, "brinca" com um computador! 
Ele foi para o quarto chorando, prometendo que vai esperar para o Tio Cablal lhe contar história, o que asseguro fazer. Enquanto isso, eu e J, como vou apresentar meu colega, uma vez que se trata de gente real e não ficção, comparamos textos nossos com textos de Carlos Heitor Cony e Luiz  Fernando Veríssimo, procurando tirar uma casquinha nos papas da crônica. Mas eis que de repente começamos a ouvir uma voz tipo Mônica....mããe, a senhola qué mãe de Jesus, me adiuda, a senhola pode, é mãe de Jesuus, fala com meu pai pla eu blincar com mias ilmãs lá na valanda, diiii pla ele que noão agluento ficá pleso no esculo...vai! Eu olo pla senhola todo dia....
 Ao ouvir isso, J não aguentou e foi rápido para o quarto do menino, pegou-o nos braços e pediu desculpa, enquanto ele agradecia a Nossa Senhora dizendo " a senhola é lápida hein! Eu vou olá mais! Obligado!!" e beijou o pai, que caiu no pranto.
J, assim como eu, somos de raíz católica, temos nossos lares cheios de símbolos de nossa formação religiosa; Cristo na cruz, esculturas de igrejas barrocas, Santo Antonio, São Jorge, São Francisco de Assis e, impreterivelmente, imagens de Nossa Senhora pela casa toda. É o caso do quarto do menino dele, que ostenta um quadro da Virgem vindo de sua Avó, Dona Olinda, descendente de italianos franciscaníssimos. É aos pés Dela que ele reúne-se com esposa e filhos para orar ao fim dos seus dias. E é por isso que o pequeno P sabe se dirigir à Santa.
Mas, conclusão: Ele, como torturador, não faturaria nem um café!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

COISA DO ROMA - CRÔNICA * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


Nós sabemos o que é isso, essas expressões que o povo cria, como "coisa do fulano, ah, cheira a sicrano, a "coisa do roma" se incorporou à vida do povo de Itapema. Mas quem vê o mar de Itapema, litoral norte de Santa Catarina, pensa em Itapoã - BA, Ipanema - RJ, tamanha a sua beleza, só não imagina que vai encontrar pelas ruas um deficiente heróico: O Roma!

Roma é como se apresenta o Senhor Francisco Carlos Roma. É pescador aposentado, e ninguém tomaria conhecimento da sua existência não fossem as suas aventuras sobre uma cadeira de rodas, motorizada.

O Roma, como dizem os habitantes do lugar, dá de cem no Felipe Massa! Ninguém entenderia como sem pesquisar um pouco sobre a sua "Cadeira de Rodas". Acontece que o nosso personagem, como todo bom pescador, desenvolveu habilidades especiais, após uma vida "inteira" consertando barcos de pesca, às vezes em alto mar.

Porém, em 2004, aos 24 anos, de tanto " dar uma " de engenheiro, sofreu uma descarga elétrica e o resultado foi a perca de um braço e as partes inferiores das duas pernas. Ou seja, invalidez aos vinte e quatro aninhos. Isso na cabeça de quem sempre desafiou os perigos, pode ser o fim!

Mas o Roma não é brinquedo não (!), diz o sorveteiro da praia, enquanto ele explica que graças a seus conhecimentos de engenharia mecânica, adaptou sua cadeira com um motor 125 cilindradas, pôs freio  e rodas de moto, e anda todo esse mundão de meu Deus em cima da "locomoção que eu fiz!"

Sua fala demonstra todo um elevado grau de auto-estima, auto-confiança, força interior, capaz de emocionar quem lhe ouve contar suas façanhas. E só isso explica as peripécias pela BR101, aonde foi filmado fazendo ultrapassagem em alta velocidade sobre cadeira de rodas.

Não ficou barato, exclama nosso herói, que detalha o "processo" que sofreu, a "prisão" da cadeira pela polícia e a reprimenda perante o juiz, de que se repetisse aquilo, ficaria sem o seu veículo!
Agora vejam-no sobre rodas:
* - ACF é escritor e poeta, morador de Jacarepaguá e editor do blog letrastaquarenses.blogspot.com.br  
***

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SOBRA DE RAZÕES * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

***
Quisera ser guerrilheiro
dias e noites selva adentro
montes e vales regados a suor
 comida por prêmio
 água por descoberta
 sono por conquista
da meta atingida
tudo para mudar o mundo
com as massas de arma em punho
como quis Chê Guevara
ser odiado pelos imperialistas
e os sanguessugas de plantão
procurado como agulha no palheiro
por idiotas armados até aos dentes

E no entanto olha eu aqui
sentado com o político mais corrupto
da minha pobre cidade
solicitando coleta de lixo
para as ruas do meu bairro
como um reformista manso
em nome dessa gente indefesa

Mais um dia e eu ainda
sigo Malatesta
arranco o pino da granada
latente em meu peito
junto com Bakunin
e perco essa paciência de Jó
mesmo que ninguém 
entenda o meu gesto Artaud
e pense que eu mandei pros ares
a câmara cheinha de vereadores
simplesmente porque andei lendo demais
batendo papo com Leminski
ouvindo Violeta Parra
na madrugada sem sono
falando sozinho na cozinha
enquanto a família dorme sossegada
ou coisa assim...
***

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

ETERNA CANÇÃO DOS BECOS * Antonio Cabral Filho

***

Becos que canto no verso
sem fazer questão do metro
sem nenhuma pretensão
nem mesmo de sifilítico,

Becos das minhas certezas
e das ilusões perdidas
em leitos profissionais
nas vielas do Estácio,

Dos sarros bem tirados
no cine Pinto Azevedo
e tantas trepadas em pé
nas quebradas do São Carlos,

E tantas outras 
no campinho da Mineira
e outras tantas ainda
no Cemitério do Catumbi,

Sem contar as noites quente
com a Marisa do Charrão
no alto do Querosene
sobre uma esteira no chão.

Becos do Beco da Fome,
menina dos olhos de Copa bacana
e alegria de altos e baixos Leblons,
onde a fama do prazer
tira o atraso da galera.

Becos que ninguém cantou,
nem no dístico nem no tríptico
e quiçá numa quadra,
mesmo com elipses mentais,

Eu vos empresto minha alma,
mas com a mineira sisudez
em olhar só de soslaio
cá do Largo do Boiadeiro.
***

sábado, 2 de novembro de 2013

LAVADEIRAS DO RIO DOCE * Antonio Cabral Filho

Todo dia bem cedo
Seguem levas de lavadeiras
Com as trouxas na cabeça.
Cada uma leva consigo
Um punhado de farofa no embornal
Para a boquinha necessária.
Todas possuem por costume
Vasto repertório de canções
Para a hora da esfrega,
Que entoam com voz meiga
Enquanto vão-se calmas
As águas do Rio Doce.
E as lavadeiras do Rio Doce,
Com suas canções de alvejar
Lavam a roupa mais alva
De que dão-se notícias
Por todas as redondezas
Espalhando tanta fama.
Mas isso pode ser visto
Na hora do sol a pino
Estendido nos varais.
É brancura de doer
As vistas do transeunte
Da BR 116,
E, segundo as línguas de trapo,
O boto tem sido acusado
De andar por aquelas bandas,
De ser o maior come-quieto,
Pois vive entoando canções
De enfeitiçar lavadeiras,
E possuí-las durante o sono
Sob os ingazeiros floridos
Perfumando o entardecer.
Enquanto lençóis branquíssimos
Brincam de pique com o vento
Nos sonhos das lavadeiras.