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domingo, 6 de setembro de 2015

Discurso Dos Ventos * Antonio Cabral Filho - RJ



Discurso Dos Ventos

Cruzo as ruas
E seus hermeneutas
Desfilando discursos
Enfileirados

Seguindo a ordem unida
Das disciplinas disformes –
Ovos de serpentes extintas

Noto cobranças herméticas
Em prosas prolixas estéreis
Nos raios cortantes das pedras

Um vento frio repõe a poeira
Erguida pelos coturnos
De antigas marchas cinéticas

Tudo se move
Por entre os cubos de gelo
Da velha taça sempre inerte

E quando eu puder
Também farei discursos herméticos
Para os ouvidos moucos
Mas por ora

Ouçam o que dizem os ventos 

***

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cheiro De Poesia * Antonio Cabral Filho - Rj

-dreamstime-
***
Cheiro De Poesia

A poesia emana de meus poros
e irradia seu odor ao redor.

Faz arder certas narinas
e distender outras.

Ela faz isso
para que todos entendam
que a poesia trabalha
o dia inteiro
e tem pleno direito
a liberar suas essências.

Isso não subentende
que ela imite a indústria química,
as refinarias de petróleo
e as usinas de açúcar,
que o fazem à revelia
do Protocolo de Quioto.

Porém, há uma diferença ímpar
entre o que exala a indústria
e o que expele a poesia.
*

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Poema Sem Tribo * Antonio Cabral Filho - Rj

CONCURSO
1ª ANTOLOGIA
http://antologiabrasilliterario.blogspot.com.br/ 
***
Poema Sem Tribo

Toda tribo tem cacique,
não há mesmo quem o negue;
mas na tribo em que sou índio,
cacique nada de costas
pra não virar souvenir.

Vejam a tribo dos católicos!
O cacique fica em Roma,
vira broche, chaveirinho, calendário
e vai acabar na hóstia
saboreado com vinho.

Como não sou tanto assim,
prefiro o Cacique de Ramos,
onde o poder é de todos
e a ordem é só foliar!

*

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

MULHER * Antonio Cabral Filho - RJ

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MULHER
*
Inúteis mitologias
e todos os preconceitos
que tolhem sua deidade,

toda insanidade rui
à sua tenacidade

e sob o fulgor da sua luz
ei-la sobre o pódio das vitórias,

deusa de toda a paz,
rainha do nosso amor,

incomensurável sempre,
farta no seu calor,

dona do nosso ser,
mulher, naqueles dias, cuidado...
***

quarta-feira, 28 de maio de 2014

AUTO RETRATO AOS 6O ANOS # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

*
-Antonio Cabral Filho-

Nasceu em Jampruca, uma carvoaria,
em Frei Inocêncio, Minas Gerais, 
no dia 13 de agosto de 1953.
Altura 1, 65
calça 40
colarinho M,
já fumou, bebeu,
bateu cabeça por aí,
até dar de cara com o sol,
mas deixou disso.
Gosta de viver em paz, 
consigo e com os outros
e torce pra não pintar rebu,
porém...
Gosta de ouvir rádio,
detesta telefone, campainha,
barulho no portão,
odeia gente que fala alto,
usa óculos só pra ler
e está ficando calvo.
Só come pra matar a fome
e não recusa jiló como aperitivo.
Adora frutas e doces
e vigia suas compulsões.
Gosta de música, de todo tipo, 
mas a mpb domina,
lê de tudo, até jornal do metrô,
e inventa matérias sobre eles
em forma de crônicas.
Já escreveu um monte de livros,
mas editou só três, em papel,
e em e_book 35.
Desconfia dos ateus, 
pois já viu um deles
mudar de calçada
devido a um gato preto.
Nunca se filiou a nada,
nem pretende.
Vive de pé-atrás
com quem declara ódio à burguesia
e amor às crianças...
Escritores que mais cultiva:
Graciliano Ramos, Emile Zola,
Maiakovski, Brecht, Benjamin,
Ferreira Gullar, Gonçalves Dias,
e seus contemporâneos.
Tem atração por alguns
palavrões, como buceta, cu,
boquete, 69, frango-assado etc,
beija lentamente, sem respirar...
Não tem preconceitos profissionais,
desde o cabo da enxada
até à mesa de produtor gráfico,
se vira mais que o Faustão.
Quer distância de quem deseja
a morte dos outros,
pois acaba indo na frente,
furando a fila dos defuntos.
É tido por pessimista, 
mas só ele sabe o que já viu.
Não troca de guarda-roupa,
pois não coleciona o conteúdo.
Reescreve exaustivamente 
seus contos e poemas,
a ponto de desconhecê-los depois
e já fez turismo na cadeia
por subversão...
Faltou comida no quartel!
Também já foi avesso
a modernices tecnológicas,
mas descobriu o leptop
aos sessenta anos de idade
e não se arrepende.
Seus melhores amigos
são os inimigos, pois sabe
o que eles pensam de fato.
Não tem dívidas
e se fosse matar quem lhe deve,
resolveria boa parte
do problema habitacional.
Não é perfeito, 
nem  é burro bastante
pra deixar de aprender,
mas espera fazer vingança
quando morrer, matando 
de chorar os amigos
e de rir, os inimigos, 
até o ano que vem.
***

sábado, 2 de novembro de 2013

LAVADEIRAS DO RIO DOCE * Antonio Cabral Filho

Todo dia bem cedo
Seguem levas de lavadeiras
Com as trouxas na cabeça.
Cada uma leva consigo
Um punhado de farofa no embornal
Para a boquinha necessária.
Todas possuem por costume
Vasto repertório de canções
Para a hora da esfrega,
Que entoam com voz meiga
Enquanto vão-se calmas
As águas do Rio Doce.
E as lavadeiras do Rio Doce,
Com suas canções de alvejar
Lavam a roupa mais alva
De que dão-se notícias
Por todas as redondezas
Espalhando tanta fama.
Mas isso pode ser visto
Na hora do sol a pino
Estendido nos varais.
É brancura de doer
As vistas do transeunte
Da BR 116,
E, segundo as línguas de trapo,
O boto tem sido acusado
De andar por aquelas bandas,
De ser o maior come-quieto,
Pois vive entoando canções
De enfeitiçar lavadeiras,
E possuí-las durante o sono
Sob os ingazeiros floridos
Perfumando o entardecer.
Enquanto lençóis branquíssimos
Brincam de pique com o vento
Nos sonhos das lavadeiras.