terça-feira, 17 de junho de 2014

ODE A NUPORANGA * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

Ode a Nuporanga 
 Antonio Cabral Filho - Rio de Janeiro - Rj


Não cobiço Maracangalha;
tirar onda de Caymmi...

Não me refugio em Pasárgada,
à sombra de Manuel Bandeira.

Não quero nada emprestado,
nem vivo de faz-de-conta.

Meu Pindorama é Nuporanga,
onde não há nada postiço.

Não preciso ser bonito nem feio,
para fruir de beleza tamanha.

Lá, as Yaras dançam para mim,
ao som de maracás e tantans,

nosso cauim é puro
e maturado ao sereno,

todos cantam seus cantos de festas
a quem festeja belezas e cantos

e vivemos ébrios de deidades
pois todos somos divindades.
*

sábado, 7 de junho de 2014

PODERES MÍSTICOS DA CALCINHA # Antonio Cabral filho - Rj

MOMENTO LITERO CULTUAL - SELMO VASCONCELLOS  - RO
ANTONIO CABRAL FILHO
*
PODERES MÍSTICOS DA CALCINHA

São coisas do território das lendas,
estórias dos tempos das altas bruxarias,
mandingas recheadas de mistérios
feitas para durarem além da cronologia,
fatos comprovados de loucuras transcendentais,

tudo bem sedimentado
no alicerce das paixões
possuindo por todo sempre
como pedra fundamental
a peça mais delicada
do vestuário feminino,

expressão da maior sensualidade,
cofre de segredos inenarráveis
e senhora de tontos encantamentos.

É d'onde vem os feitiços
que nos mantem cativos,
como o café da manhã
passado na calcinha
para o homem em jejum
ou a mesma estendida no varal
para o homem passar em baixo
ou ainda o nome dele 
costurado nessa peça
e usada pela pretendente
durante sete dias e noites
seguidas de sete orações
ao Padroeiro Santo Antonio.

Mas isso é para prender
e dizem que para expulsá-lo
é só urinar no seu rastro
que ele jamais lembrar-se-á
da sua antiga pastora.

E, segundo o Manual
do Perfeito Bruxo do Amor,
se a dama pretendente
quiser o homem para sempre,
é só fazê-lo dormir 
com sua calcinha uma noite
vestida sobre a cabeça,
e como dica de apoio
sugere calcinha branca
para um amor calmo e seguro,
bem no ritmo do remanso;
vermelha para amor fogoso
tipo tempestade de verão,
preta para amor cego
como o sol de meio dia,
que brilha despreocupado,
e em se tratando  de mistérios,
é bom ser comedido
senão a sintaxe explode
e vira paroxismo.
*

quarta-feira, 28 de maio de 2014

AUTO RETRATO AOS 6O ANOS # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

*
-Antonio Cabral Filho-

Nasceu em Jampruca, uma carvoaria,
em Frei Inocêncio, Minas Gerais, 
no dia 13 de agosto de 1953.
Altura 1, 65
calça 40
colarinho M,
já fumou, bebeu,
bateu cabeça por aí,
até dar de cara com o sol,
mas deixou disso.
Gosta de viver em paz, 
consigo e com os outros
e torce pra não pintar rebu,
porém...
Gosta de ouvir rádio,
detesta telefone, campainha,
barulho no portão,
odeia gente que fala alto,
usa óculos só pra ler
e está ficando calvo.
Só come pra matar a fome
e não recusa jiló como aperitivo.
Adora frutas e doces
e vigia suas compulsões.
Gosta de música, de todo tipo, 
mas a mpb domina,
lê de tudo, até jornal do metrô,
e inventa matérias sobre eles
em forma de crônicas.
Já escreveu um monte de livros,
mas editou só três, em papel,
e em e_book 35.
Desconfia dos ateus, 
pois já viu um deles
mudar de calçada
devido a um gato preto.
Nunca se filiou a nada,
nem pretende.
Vive de pé-atrás
com quem declara ódio à burguesia
e amor às crianças...
Escritores que mais cultiva:
Graciliano Ramos, Emile Zola,
Maiakovski, Brecht, Benjamin,
Ferreira Gullar, Gonçalves Dias,
e seus contemporâneos.
Tem atração por alguns
palavrões, como buceta, cu,
boquete, 69, frango-assado etc,
beija lentamente, sem respirar...
Não tem preconceitos profissionais,
desde o cabo da enxada
até à mesa de produtor gráfico,
se vira mais que o Faustão.
Quer distância de quem deseja
a morte dos outros,
pois acaba indo na frente,
furando a fila dos defuntos.
É tido por pessimista, 
mas só ele sabe o que já viu.
Não troca de guarda-roupa,
pois não coleciona o conteúdo.
Reescreve exaustivamente 
seus contos e poemas,
a ponto de desconhecê-los depois
e já fez turismo na cadeia
por subversão...
Faltou comida no quartel!
Também já foi avesso
a modernices tecnológicas,
mas descobriu o leptop
aos sessenta anos de idade
e não se arrepende.
Seus melhores amigos
são os inimigos, pois sabe
o que eles pensam de fato.
Não tem dívidas
e se fosse matar quem lhe deve,
resolveria boa parte
do problema habitacional.
Não é perfeito, 
nem  é burro bastante
pra deixar de aprender,
mas espera fazer vingança
quando morrer, matando 
de chorar os amigos
e de rir, os inimigos, 
até o ano que vem.
***

quinta-feira, 22 de maio de 2014

NAS TRILHAS COM HO CHI MINH # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

Ho Chi Minh
ou
melhor
Nguyen Tat Thanh,
nasceu em 19 de maio de 1890 e faleceu de ataque cardíaco em 3 de setembro de 1969, mas seu país, o VIETNAM, derrotou política e militarmente, três das maiores potências capitalistas mundiais: o Japão, a França e, gloriosamente, os EUA.
*
NAS TRILHAS COM HO CHI MINH

Somos todos Ho ChiMinhs,
seguros em nossas trilhas
com a certeza da vitória
rumo à revolução.

Caminhamos sobre minas
por terrenos escarpados
sentindo em nossas nucas
o hálito fecal dos joes.

Cruzamos pântanos rubros
do sangue de nossos irmãos
e vemos corpos cinzentos
boiando sobe o Mekong.

Nossa ração mínima
de água e arroz vermelho
quase parece um fardo
para as nossas condições.

Nossas únicas notícias
sobre a sanha inimiga
é a catinga de pólvora
que aspiramos do vento.

Colunas de Ho Chi Minhs,
comandos de Ho Chi Minhs,
meninos chamados Giaps
tiram o sono dos joes.

Não dormiremos em paz
enquanto houver um yank
maculando nosso chão
com sua fome de miséria.

E se faltar munição,
matá-los-emos todos
com flechinhas de bambu
infectadas de merda.

Vietnam é liberdade,
é paz nos arrozais,
sorriso de nossos filhos
e o canto de nossas mulheres.

Somos todos Ho Chi Minhs
seguros em nossas trilhas
com a certeza da vitória
rumo à revolução.
***

sábado, 17 de maio de 2014

CANTIGA PARA CASSIANO NUNES # Antonio Cabral Filho - Rj

.

Mestre Cassiano Nunes - Internet
*
Recebi poemas durante anos
do Mestre Cassiano Nunes
e saía com eles pra rua,
levava para os eventos
e lia para os amigos
nas rodas e recitais,

e quando soube da sua morte,
levei um baque; e agora (?),
pensei, mas certo de não ter resposta,
segui de garganta seca.

Senti por não fazer acervo
de tantos poemas que recebi
sempre com dedicatórias
Ao Poetamigo Antonio Cabral Filho,
mas me desfiz deles após
lê-los para o meu público
e publicá-los em meus fanzines.

E a falta que sinto agora,
seja dos poemas ou do poeta,
é a satisfação que vai comigo
enquanto eles se foram
para outras vidas e outras formas.

Mas quando alguém perguntava
após a leitura de um poema
quem era Cassiano Nunes,
eu respondia todo enrolado:
É um paulista nascido em Santos
que foi pra Brasília
e nunca mais saiu de lá!
***

domingo, 11 de maio de 2014

CABEÇA DE TOCO # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

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CABEÇA DE TOCO

Naquelas curvas
que dão voltas no sertão
há casos que o povo conta,

casos de poeira
que sobe nos braços do vento
e faz a Virgem Maria
trazendo anunciação

casos de assombração
que vai em nossa frente
andando andando
sem olhar para trás
sem deixar rastros
nem fazer movimentos

casos de toco toco sim
punhado de tocos
que vivem na beira da estrada
seguindo a nossa viagem
e ficam ali parados
olhando as gentes passar...

e tem toco que vai
segue os passos da gente
e faz o pobre parar
e pôr a mão na cabeça
abestado que só vendo
e perguntar ao sertão
"mas eu num já vi esse toco (?!)
passei por ele agorinha..."

mas tem toco que exagera
e tira tudo do sério:
É toco que tem cabeça,
toco que tem cabeça, é!
Dizem que é...
não é cabeça de boi,
que é maioria 
e não dá nem pra somar;
não é cabeça de burro,
que há em profusão
e ninguém dá conta de contar;
não é cabeça de gente,
que de gente há multidão!

Dizem os andarilhos do sertão
que as cabeças que os tocos tem
é a cabeça do bicho,
é, a cabeça do bicho,
cabeça do bicho, é é é é !!!
***

sexta-feira, 25 de abril de 2014

PAIXÃO DE CLARICE SEGUNDO GH # Antonio Cabral Filho - Rj

Desenho de Carlos Scliar
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PAIXÃO DE CLARICE SEGUNDO GH

Segundo Kierkegaard,
" O que importa
é encontrar uma verdade
que seja verdade para mim,
encontrar a ideia pela qual
possa viver e morrer."

Alguns levam a vida parados,
deixam o tempo escorrer
como melado para fora do tacho,

deixam o tempo passar
como queira a cadeira de balanço,
sem sequer espichar o olhar
e ver o que se passa
além da sua varanda.

Deixam tudo pra depois,
não apertam o passo
nem pelo ano novo.

Outros cruzam a vida depressa
afobados com tudo,
sobrecarregados de bolsas,
sacos de compras, pastas,
e a cabeça cheia de contas,

passam por nós sempre atrasados
até encontrá-los aveceizados,
presos à cadeira de rodas.

Mas tem uns que passam
tão rápidos pela vida
que não deixam nem rastros
para o poeta pôr no verso.

Vivem tão intensamente
cem anos em cinco
que preferem morrer de tiro
do que viver de tédio.

Estes são como GH,
que fez Clarice 
guardá-los na manga
e livrá-los dos nossos incômodos.
*

sábado, 19 de abril de 2014

CANÇÃO DOS GUETOS # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

+
*****
CANÇÃO DOS GUETOS
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD.
Guetos de Roma
Hanói, Formosa
Pequi, ou de la Habana Vieja
Y sus "desintegrados"
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD.
Guetos londrinos
Bem à margem do Buckingham
Guetos germânicos
De Bonn ou Berlim
Divididos em "Òssis e Véssis"
Cada um velando
em seu umbigo
o ovo da serpente
MADE IN GERMANY
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD.
Guetos da Bolívia
E seus índios "cocaleros"
Da tribo Quéchua,
Guetos do Peru
E seus guerrilheiros
Sem sendeiros luminosos
Para TUPAC AMARU,
Guetos da Venezuela
E seus caracazos bolivarianos
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD
Guetos dos guetos amarelos
Brasilverdesifilíticos
Gonorrêicos que não lhes quero
Assim do Oiapoque ao Chuí
Das palafitas ribeirinhas de Manaus
Cheias de prostitutazinhas meninas
Vendida por seus próprios pais
A caftens made in europe
Às margens das trans...amaz
Ônicas de meninos e meninas ao relento
Nas praças da república
De suas megacapitais
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD

Guetos de São Paulo
Dos casarios miseráveis
De tábua e zinco
Das zonas norte
Desnorteadas pro
Sul leste oeste
Que apesar dos pontos cardeais
Que os atritam
Nenhum cardeal
Nos deixam em paz
Nos seus sermões dominicais
YO LOS HABLO HERMANOS
ACÁ TAMBIEN HAY APARTHEYD
Guetos do Rio de Janeiro
De tontas maravilhas
De janeiro a janeiro
E cariocas brejeiras
De cartão postal
De Chapéu Mangueira
E Pavão Pavãozinho
Vidigais e Vigários Gerais
Onde a palavra FAVELA
Fala a língua do "bigode grosso"
Pela graça da mordaça
De tantos COMANDOS
Há que buscar uma linha
Mesmo que seja vermelha
Mesmo que seja amarela
Ainda que seja anêmica
Para juntar tantas
Rocinhas Morros das Viúvas
Ladeiras dos Adeuses
Baixadas e Jardins Catarinas
Contra tantos opressores.
Pero hermanos
Hablar no me basta
Como no me basta
Llorar los hermanos caídos
Pois para poner fin
A tanto apartheyd
HAY QUE ENSUCIARSE LAS MANOS!
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

LÍNGUA DE MEL * ANTONIO CABRAL FILHO + RJ

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Pátria da língua
ou língua da pátria
não quero saber,
não me importa
a nacionalidade da língua
e sua pátria muito menos.
Eu só quero a linguada,
a lambida sedosa
que me faz arrepiar
e arranca o gozo
com jorradas e urros.
Sem essa de minha pátria
é minha língua que nada,
se ela não tem 
um orgasmo pra mim,
só me interessa o boquete.
***